Neste livro, José Rodrigues dos Santos tenta provar que Deus existe, através de um romance com muita acção, baseando-se para isso em teorias da física actual.
Antes das teorias vamos ao livro. Não vou resumir a história, pois não quero estragar a leitura de ninguém mas basicamente consiste num grande mal entendido entre o Irão e os Estados Unidos. O Irão tem um documento escrito por Einstein e seus discípulos (um Português e um Tibetano) que pensa ser a fórmula para uma bomba atómica. Os EUA por sua vez querem esse documento. Com raptos, prisões torturas e viagens a acção navega por águas seguras com todos os condimentos para prender o leitor. JRS não só cria um laço de amizade entre o leitor e Tomás, o "herói" do enredo como também mantém outras estórias agradavelmente entrosadas com a acção do livro: a relação "proíbida" com Ariana, o estado de saúde do pai... Dizem que é uma acção ao estilo Dan Brown mas como nunca li este último, não posso dizer nada sobre isso. Mas duvido que Dan Brown tenha um vocabulário tão rico como JRS!
Há no entanto uma pechazinha na escrita. Acho que especialmente a nível dos diálogos, JRS não se sente muito confortável. São diálogos com interjeições que às vezes parecem puxadas à pressão (como por exemplo o ubiquito "Puxa!"). Além disso, JRS sacrifica um pouco os diálogos para explicar as teorias físicas pelas quais tenta provar que Deus, afinal, existe, o que é compreensível.
Quanto à física. Bem, admito já que a minha física é bastante básica! Mas vou usar aqui o espírito crítico que defendi há alguns dias atrás neste mesmo blog. Creio que se a primeira parte da teoria (a de que a teoria quântica, os teoremas da incomplitude e o princípio do caos) é bastante interessante e crível, já a segunda (que acenta numa espécie de teoria Antropocentrista) é bastante insuficiente. Durante o meu doutoramento aprendi (da pior maneira) que as associações, por mais fortes que sejam nem sempre se traduzem em regras. JRS tenta provar que as muitas coincidências ao longo dos 15 milhões de anos de existência do universo que possibilitaram a vida se traduzem numa vontade de uma força maior em criar condições para que nós vivamos. Vou dar um exemplo: na biologia vemos o contrário disso todos os dias. É muito comum ouvir dizer que a natureza é uma máquina perfeita, que é impossível contruir algo tão intricado sem se ser tão perfeito como Deus. Poderíamos, se quiséssemos seguir a fácil teoria de que tudo é feito para possibilitar a vida, defender que tal grau de perfeição teria de ser desenhado por um poder maior, um poder que pudesse (desculpem a paranomásia) desenhar algo sem mácula. No entanto, se estudarmos a evolução da vida, especialmente com a ajuda da genética evolutiva, vemos que o que parece uma máquina perfeita não é mais do que um acumular constante de erros. As mutações (que acontecem ao acaso), ou deixam o indivíduo menos capaz de sobreviver (o que acontece 99.999999% das vezes) ou então dão-lhe uma vantagem em relação aos seus pares e permitem-lhe uma disseminação mais eficaz dos seus genes. Do ponto de vista do produto final poderíamos dizer que uma força maior agiu para que fosse possibilitada a vida a este ser. No entanto, do ponto de vista de quem acompanha a história (e vê as tentativas falhadas) isto é uma ocasião onde o acaso e a sorte se juntaram para possibilitar a vida. É assim que eu penso em relação à segunda via para provar a existência de Deus. O universo em que vivemos é uma ocasião onde o acaso e a sorte se juntaram para possibilitar a vida. Quem sabe se já não houve 100000000000000000000000000000000000 de Big Bangs e Big Crunchs?
O resultado final é um bom livro com motivos de interesse. E isso, num livro, é o que interessa! Mas, especialmente importante ao ler este livro, não descuremos do nosso espírito crítico!
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09 fevereiro 2007
A Fórmula de Deus
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