28 janeiro 2007

Dói, mãe?

"Talvez tenha sido o desejo, talvez o fogo, talvez a inocência, o certo é que não o fizeram como se diz na publicidade. "Faz o que te der na gana, mas protege-te". Eles não. Partiram só à descoberta de si próprios, esquecidos de tudo.
E agora M. está grávida. Tem um bebé dentro dela. Levanta-se de manhã a disfarçar uns enjoos, a mãe faz-lhe uma cara esquisita. O que se passa contigo, rapariga? Ela pensa como há-de dizer-lhe Mãe, é assim... Mas anda a adiar. Tantas semanas a adiar. E agora está a ficar sem tempo.Mãe, é assim estou grávida. O quarto ainda recheado de barbies e witches, a cama vestida de rosa, o velho ursinho castanho a preguiçar na almofada, os livros do nono ano descuidados sobre a secretária, e M., contudo, tem um bebé na barriga.
A boca da mãe a abrir-se, a abrir-se, os olhos de M. inundados, aflitos. Estás grávida, como? A mãe a saber como se fazem os bebés e a imaginar a sua menina, a sua princesinha... Não. Como é que podes estar grávida? M. a soluçar os sintomas e a mãe a não querer ouvir, a não querer que ela diga aquelas coisas. Podia ser um dia tão feliz, esse em que soubesse que ia ser avó. Daí a uns dez ou 15 anos. Não este deslustre, este estigma, esta tragédia.
E agora, mãe? Agora vamos secar as lágrimas, vamos pensar. A mãe a investigar-lhe o corpo, a medir-lhe o ventre pueril com os olhos. Uma coisa tão indelével, tão inexorável, tão esmagadora. E agora, Deus? É pecado repor a candura numa menina de 14 anos? Agora fechas os olhos, Deus. Não vês. Caiu uma semente por engano, por azar, no âmago de uma criança. É só uma semente, ainda não é nada, quase nada. Nem todas as bolotas geram um novo carvalho. Tu és Deus, tu compreendes.- Dói a crescer, mãe?- Dói, filha, dói que se farta.
Tantas vezes M. fora mãe a brincar. Imaculadamente, mãe. E não doera. Nunca deixara morrer um tamagotchi. Nunca lhe faltara com papas, fraldas e mimos. Nunca tivera vontade de o desligar.- Como se desliga uma coisa destas, mãe?- Há maneiras, filha, há maneiras.- E dói, mãe?Dói, Deus? Dói para além da memória e da culpa? Para além da vergonha estúpida, da raiva e do remorso? Dói no Céu como dói na Terra? Fica a doer eternamente, à tua conta, pelos séculos e séculos? Um Deus perfeito, um Deus de amor, pode gerar algum tipo de sofrimento? M. escolhe perder o seu bebé, escolhe continuar menina no seu quarto de sonhos cor-de-rosa. E morre a semente inteira de um ser humano para que ela possa ser criança até ao fim. Sim ou não?"
In JN, 28/01/2007 - Fernando Marques , Jornalista - cessa hoje a sua colaboração no JN. A Direcção agradece a dedicação que ao longo desse período demonstrou para com o Jornal.
Esta "opinião" tocou-me.
Contudo, não quero, com isto, influenciar ninguém. Até porque, eu, um adepto do sim, agora que estamos mais perto da votação, sinto que estou cada vez mais indeciso. É um tema complicado. Como disse antes, não é linear. A vida não é a preto e a branco.
Acima de tudo, temos que respeitar as opiniões dos outros. Não há espaço para ideias radicais. Quero apenas que na próxima semana possamos ir todos expressar a nossa opinião, mas, até lá, tenhamos alguns momentos íntimos de reflexão, dado que o tema é sensível e importante. Não estamos "apenas" a escolher um Governo, nem a expressar as nossas opiniões clubísticas ou religiosas. É um tema de cada um. "O aborto não se discute" - Elisa Ferreira, Eurodeputada.
No outro dia vi, num "telejornal", adeptos do sim e do não em plena campanha, e que, por acaso, se cruzaram, a discutirem e a insultarem-se mutuamente. Agora eu pergunto-me, onde está o respeito? E o conceito de sociedade? Penso que acima de tudo temos que ter a consciência que não somos melhores ou piores de os outros que não partilham da mesma opinião. Estamos numa democracia em crescimento, onde terá que haver espaço para a diferença.
Eu que acredito na nossa sociedade, no nosso futuro enquanto país tolerante e num Portugal desenvolvido em todos os campos, fiquei um pouco desiludido.
Todavia. É importante ir votar. Quantos dos que expressam a sua vontade em público não irão votar? E os que não a expressam, será que não vão votar para dizerem que não foram parte integrante da decisão? Poderemos sempre admitir que há quem não queira expressar a seu direito de voto. Claro que podemos. E depois pensamos naquilo que os nossos pais passaram para que todos possamos ter o direito de decidir se vamos votar ou não. Em pior situação estão aqueles que querem votar, mas é-lhes difícil por estarem fora de Portugal (Um abraço Ricardo).
Agora é tempo de reflexão.

12 comentários:

NA disse...

O Pedro voltou a tocar numa questão que para mim é fundamental. Neste referendo não há vitórias nem derrotas, estamos a falar de uma situação bastante complicada para ser ganha com meros argumentos...

A vitória será da democracia se desta vez, ao contrário dos anteriores referendos, for um grupo significativo de pessoas participar... Pelo bem da democracia é importante que as pessoas participem e que mostrem que querem ter um papel activo na vida democrata...

Quanto ao conteúdo do referendo, tal como citou o Pedro "O aborto não se discute"... Os argumentos que ouço de ambos os lados são argumentos "tirados do cu a saca rolhas" para justificar o que cada um quer justificar...

Espero que cada um seja capaz de tomar a sua decisão e não critique a decisão dos outros... A questão está mais ligada à maneira de ser de cada um do que propriamente a direitos seja de quem for (seja do pseudo ser, da mae, do médico, ou de qualquer outro interveniente)...

Escolham em consciência, se é que alguém vai colocar a cruzinha sem qualquer dúvida :P

Francisco Rodrigues disse...

Pois é Nuno, o teu cenário é sensato e ideal, mas não acredito nele. Até já estou mesmo a ver os partidos políticos, tal como a igreja, a meterem o bedelho.

koolricky disse...

Pedro, o referendo não é sobre o aborto. É sobre a LIBERALIZAçÃO do ABORTO.
Quer isto dizer que até podes não concordar com o aborto, ou até ser contra o aborto mas sempre podes votar SIM para que as pessoas que pensam diferente de ti não sejam encarceradas 3 anos.
Fico lixado porque toda a gente fala o referendo do Aborto e o referendo que está para ser votado é o da LIBERALIZAÇÂO DO ABORTO! Pode ser uma questão de semântica mas é importante.

Francisco Rodrigues disse...

Não há ninguém em Portugal a cumprir pena de cadeia por ter abortado.
Uma mulher grávida não é só uma mulher grávida: é uma mulher mais um filho. Se o filho é dela e precisa dela para se desenvolver, também o estado não se pode apoderar do filho, mas já tem alguma coisa a ver com o assunto. Não concordo que este referendo seja apenas sobre a LIBREALIZAÇÃO. Parece-me que, do lado do SIM, se faz questão de tapar o sol com a peneira, se tenta minimizar um referendo que é uma segunda oportunidade dada inexplicavelmente, para depois se agir como se apenas do ABORTO se tratasse, em todos os sentidos.

NA disse...

Francisco, tens razão quando dizes que os argumentos de falar apenas da despenalização são "tapar o sol com a peneira", mas esse de dizer que ninguem foi preso e para mim muito pior, senão vejamos:
- as leis são feitas para serem cumpridas
- há uma lei que toda a gente sabe que não é cumprida
- jornais fazem capas a dizer que há milhares de abortos clandestinos em Portugal
- etc etc etc

Tudo isto parece-me no mínimo hipocrita...

A pergunta deste referendo contém duas questões, a meu ver, essenciais:
- 1º Concorda com a liberalização do aborto?
- 2º concorda que o aborto seja feito em estabelecimentos publicos?

Ora, se se concorda com a liberalização, para que não haja segregação social, então concorda-se que seja feito em serviços de saúde públicos... Portanto a questão reduz-se a liberalização...

Como quanto a liberalização estão todos de acordo, entao está o problema resolvido...

Simples, não é? Não... Porque o problema e que neste debate, por a questão envolver valores religiosos (e não só...) as pessoas ficam numa dualidade, se por um lado defendem o "suposto" direito à vida ou se por outro lado aplicam o perdão cristão que tanto apregoam ao Domingo das 11 as 11.30. ;-)

Se de facto não consideram crime, ao ponto de dizerem que "nunca ninguém foi preso" então defendam o SIM, porque aplicação de multas ou trabalho civico é uma treta valente... Apenas faz um "desvio para valores mais altos" ao preço do aborto...

Eu defendo a LIBERALIZAÇÃO mas também defendo que devia haver um acompanhamento especializado (de equipas com psicólogos, sociólogos, padres, etc etc) no processo de decisão dos PAIS. Porque só a eles toca a decisão... E por favor, não me venham com os argumentos de infanticido ou de matar um ser, etc... Como já vimos neste blog, só a partir dos 5 meses é que o cérebro funciona, e sem cérebro, nem animaizinhos irracionais nós somos... Apenas química em acção...

Boa reflexão...

koolricky disse...

Nuno, acho que resumiste tudo bem dito.
Quanto aos meandros que a hipocrisia toca na corrente lei vão ver o post sobre o aborto de 6 de Janeiro "Aborto, os falsos argumentos".
Quanto a uma ocasião onde uma pessoa anti-aborto vota pelo sim vão ver o post de 25 de Janeiro "Aborto, uma opinião inesperada".
O facto de estarmos a votar um referendo 9 anos depois do último é só devido à irresponsabilidade dos Portugueses. Eu não tenho peso nenhum na consciência, fui à urna e votei.

koolricky disse...

Mais a mais Chico, não há ninguém em Portugal na prisão por ter abortado mas as pessoas que foram levadas a julgamentos em (quase) hasta pública foram enxovalhadas e discriminadas. Se é isso que queres de um país que se diz de primeiro mundo, lavo as minhas mãos...

Francisco Rodrigues disse...

Este referendo é acima de tudo um referendo urbano.
O governo antes de referendar isto, deveria ter um Sistema Nacional de Saude e um Ministério da Educação como deve ser... em todo o pais.
Vi entrevistas feitas na Televisao, em que os jornalistas, no interior perguntavam a uma mae se ia às consultas de planenamento familiar. Sabem qual foi a resposta?
"Nao vou, porque ja tenho 4 filhos e nao quero ter mais."
Sabem o que isto significa?
Que aquela senhora nao faz a mais pequena ideia do que é o planeamento familiar. Desengane-se quem pense que aquilo é um caso isolado.

No interior, as escolas fecham e as crianças tem que fazer dezenas de quilometros todos os dias, senao abandonam e ponto final, vão trabalhar para o campo. Mesmo que andem na escola ate ao 12º ano, nao falam em Educaçao Sexual como deve ser. A culpa é do estado.
Os centros de saude, urgencias, SAP e maternidades fecham dia apos dia. O planeamento familiar é assim uma grande treta, inacessivel material e informativamente para as populaçoes não urbanas. A culpa é do estado...
Não forma/informa as pessoas/crianças/jovens/estudantes, o que seja.
E ainda há as comparticipaçoes, ou falta delas.
Se um pais, seja qual for o governo, tem estas maquinas (educaçao/saude) podres e ficticias, de que vale votar sim?
No ultimo referendo votei em branco, mas votei.
Eu voto nao, apesar de ver a vergonha que a igreja é. Nao me revejo naquela cambada.

Nota:
Tambem acho que o governo, com maioria poderia aprovar o sim, numa atitude de coragem e arrumava o assunto. Outra coisa que está mal é a infiltraçao dos partidos politicos na camapnha. Este referendo deveria ser um referendo de consciencia, autonomo e se assim fosse contribuiria para o crescimento da democracia.
Nestes moldes, compreendo perfeitamente que não vai votar.

koolricky disse...

Este referendo já foi votado na assembleia mas alguém o sabotou por causa duma fábrica de queijos...
Quanto às políticas de educação sexual, concordo em tudo contigo. Simplesmente, deixar a lei como está não vai resolver nada disso. São assuntos diferentes. É um argumento semelhante àqueles de se estar acabar com as maternidades para financiar o aborto.
Uma coisa é certa, e o Nuno já aqui mencionou isso. Não haverá vencedores nem vencidos nesta campanha, simplesmente haverá mais transparência e claridade. Pois, e talvez menos pessoas a ganharem dinheiro com os abortos clandestinos...

Francisco Rodrigues disse...

Ontem ouvi um médico obstetra na televisão que disse duas frases interessantes:
"eu, tenho 26 anos de actividade profissional na especialidade, e não vejo nenhum Big Bang às 10 semanas de gravidez."

"a minha experiência mostra-me que, as pessoas que pensam abortar sao coagidas pela familia, amigos ou mesmo pela própria sociedade."

Catarina Lopes disse...

E a continuação desta lei impede que essas mulheres deixem de ser coagidas pelos companheiros e família? Claro que não... Isso acontece sendo o aborto livre ou não!! A alteração da lei só vai permitir que as coisas sejam feitas sem riscos para a saúde da mulher. Já chega o facto de muitas serem "obrigadas" a faze-lo!! Pelo menos q o façam sem correr perigo de vida... Eu vou votar SIM.

Francisco Rodrigues disse...

Sabiam que o código do trabalho, prevê licença, comparticipada a 100%, de 14 a 30 dias, às mulheres que façam um aborto, legal?
Então, se o sim ganhar o estado vai comparticipar o aborto no hospital e... na segurança social.