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12 maio 2008

Lançamento

O escritor Rui Manuel Amaral, lança o seu mais recente trabalho, "Caravana". A apresentação pública é no próximo dia 17 de Maio, pelas 18h00, na Livraria Centésima Página, em Braga. Apresentação a cargo de Luís Mourão com leitura de contos pelo autor.




"Caravana é um livro de histórias de figuras peculiares e imaginativos exercícios literários."
(Revista Os Meus Livros, , Maio de 2008)

30 janeiro 2008

Prémio

O escritor José Luís Peixoto venceu por unanimidade o Prémio Daniel Faria 2008. O júri, constituído por Francisco José Viegas, Jorge Reis-Sá, Tito Couto e Vera Vouga, atribuiu o prémio ao original Gaveta de Papéis, a concurso sob o pseudónimo de André Serrano.


O livro será publicado em Março nas Quasi Edições, estando prevista a apresentação para o dia 21 desse mês, Dia Mundial da Poesia, em Penafiel, cuja autarquia patrocina o prémio.

José Luís Peixoto é um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores portugueses. A sua obra narrativa encontra-se traduzida em vários idiomas e a sua poesia recebeu os maiores elogios do público e da crítica. O livro de poemas A Criança em Ruínas, publicado nas Quasi Edições em 2001, teve já sete edições, tendo vendido mais de 10 000 exemplares, caso raro, senão inédito, no panorama da edição de poesia em Portugal. in quasi edições

12 janeiro 2008

Música e literatura fantástica


Aconselho vivamente a leitura deste belo artigo, que desenha a muita influência que a música procura em grandes nomes da literatura. O autor do artigo, Fernando Ribeiro, deixa também um excerto da tradução da obra I am a legend, de Richard Matheson, que está a efectuar a pedido da editora Saída de Emergência.

30 dezembro 2007

José Luís Peixoto na 100ª

SESSÃO DE AUTÓGRAFOS:
NA 100ª (BRAGA) - 24 DE JANEIRO, 18.30HORAS
NO S. MAMEDE (GUIMARÃES) - 25 DE JANEIRO, 21.30HORAS


"A imagem da capa funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crónicas ficcionadas ou peças de teatro."

Cal, editado um ano depois do romance Cemitério de Pianos (que acaba de sair em Espanha), é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça levada à cena pelo Teatro Meridional no São Luiz (À Manhã) e três poemas inéditos. Todos com um tema comum: a velhice. Naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico.
No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo facto de serem atravessados por uma unidade temática tão forte. "

José luís Peixoto sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus romances), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.”

Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, mirram de desalento na escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço asséptico de uma enfermaria hospitalar, são muitas vezes decalques exactos de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Nalguns casos, há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico. in centésima.com

24 novembro 2007

O poema épico da Finlândia


Já o tenho - 1ª edição da 1ª tradução na língua de Camões. A versão inglesa é bem mais barata que a portuguesa. Enfim, nos livros é assim.

18 junho 2007

Opiário



Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola à portas da Alegria.


do Opiário, Álvaro de Campos (autor que saiu, hoje, no Exame Nacional de Português)

23 março 2007

Descrição do Martírio

lançaram-no ao chão e as lâminas. cortaram-lhe os braços
e, depois, as pernas. arrancaram-lhe os braços e as pernas
do corpo. sim, o sangue.

deixaram-no sozinho e o corpo. lentamente apodreceu devagar
a pele e a carne a apodrecerem diante das criânças e da inocência.
a carne podre até aos ossos.

o martírio foi quando ela partiu. ele olhou para ela e não
conseguiu acenar, não conseguiu dizer palavras impossíveis
como a palavra adeus.


José Luís Peixoto - A Casa, a Escuridão - (Temas e Debates)


22 março 2007

Natal

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos., parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em ramal Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava ?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas., diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
-Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha. (Publicações Dom Quixote)

11 março 2007

Vindima

"[...]No retalho da encosta vindimada o luar avolumava a tristeza das videiras sem uvas. As vides erguiam para o céu as varas vazias, desfolhadas, como num protesto. A terra pisada e babada de sumo tinha também um ar violado e descomposto. Ao lado do talhão que se seguia, inteiro, túmido e fechado, quase todo de bastardo e com bagos unidos e perfumados, o que ficara colhido parecia um bocado maldito do mundo por onde a desgraça passara. À medida que as navalhas avançavam, as vinhas iam perdendo a graça, a força e a virgindade. E com esta desolação morria também um pouco da alegria dos vindimadores, que chegavam da Montanha sem sono, a cantar e a dançar, e que agora dormiam como lages.[...]"
Vindima - Miguel Torga